Jogo de Areia

Bollingen: um lugar para ser


Em Bollingen, mergulho no silêncio [...] Aqui se atenua o tormento de criar; aqui, criação e jogo se aproximam.

Carl G. Jung, em Memórias, Sonhos, Reflexões

Em sua casa de pedra de Bollingen, à beira do Lago Zurique, Jung vivenciava plenamente a natureza: fora e dentro de si. Essa segunda residência era, para ele, uma Ilha de Paz, onde conseguia se afastar da ruidosa cidade, como escreveu em carta a J. Wesley Neal, em 1952. Era, mais do que isso, a representação em pedra de seus “mais íntimos pensamentos e dos conhecimentos que tinha adquirido”, como lemos em suas memórias.

Embora tenha visto florescer uma revolução tecnológica, Jung procurou reproduzir, naquela casa, o clima de uma época remota – em honra a seus antepassados e para cultivar um modo de vida simples, o que ele considerava difícil. Na vizinhança de Bollingen, ele era visto como um mero sitiante. De fato, segundo a psiquiatra Nise da Silveira, o Pai da Psicologia Analítica tinha uma gargalhada de camponês sadio, talvez reflexo de sua origem rural.

Yechezkel Kluger, analista junguiano que esteve em Bollingen, relata em entrevista a Erel Shalit como o dono de um restaurante da região ficara surpreso ao saber da magnitude daquele seu cliente habitual, que sentava com ele nos degraus da adega para degustar vinho. Na mesma entrevista, Gusti Dreyfuss recorda que o próprio Jung contava que um vizinho, ao vê-lo brincar com a água como criança, fez sinal para a filha, indicando que era louco.

 Campbell e Emma

Campbell e Emma

O grande mitólogo Joseph Campbell e sua esposa também estiveram em Bollingen, tomando chá com Jung e sua esposa, Emma. Campbell relata, em “A Jornada do Herói”, que Jung era um anfitrião encantador, sem formalidades. “Era uma pessoa maravilhosa de estar junto”, disse o estudioso.

Na velhice, Jung passava em sua casa do lago cerca de metade do ano, trabalhando e descansando. Mas a primeira parte da residência ficou pronta em 1923, quando Jung ainda contava 48 anos e por lá praticava esportes náuticos.

A primeira obra, na qual ele pessoalmente trabalhou, resultou numa construção circular de dois andares. “Uma vez construída, vi que se tornara uma habitação em forma de torre”, revelou Jung em “Memórias, Sonhos e Reflexões”. Ele ainda acrescentou que era como uma morada materna. A construção havia começado dois meses após a morte de sua mãe.

Em 1927, Jung acrescentou uma construção central, com um anexo em forma de torre também. Em 1931, como achasse que a edificação estivesse muito primitiva, reconstruiu a segunda torre, onde reservou um aposento exclusivamente para si, o qual descreveu como um lugar de reflexão, imaginação e concentração espiritual. Desejando um espaço aberto para o céu, ele acrescentou, em 1935, um pátio e uma lógia. Agora, após 12 anos, a residência era composta por quatro partes – uma quaternidade, símbolo da totalidade psíquica.

Construção da casa de Bollingen: 1923, 1927 e 1935

Mesmo assim, ela não estava pronta. Após a morte de sua esposa, em 1955, Jung sentiu que era hora de tornar-se ele mesmo. A parte central da residência de Bollingen era baixa e presa entre duas torres, uma representação do Eu de Jung, que, como coloca Maria Helena M. Guerra em sua análise do Livro Vermelho, antes fora ligado a Emma e a Toni Wolff (com quem Jung teve um relacionamento amoroso por muitos anos, falecida em 1953). Mais maduro e de consciência ampliada, avançado em seu caminho de individuação, Jung agora podia acrescentar um andar a essa parte da casa.

Nesse sentido, vale recordar o sonho que teve com Emma em 1956. Pareceu-lhe mais uma visão, algo muito objetivo, em que ela permanecia parada à sua frente, aos 30 anos, usando o vestido que a prima médium de Jung costurara e transmitindo conhecimento e saber, sem reação sentimental. Na imagem, ele sentia que estava contida toda uma vida: do início da relação do casal até a morte dela. Para Jung, a objetividade desse sonho pertenceu à individuação que se cumpriu.


O passado vivo em Bollingen

É frequentemente a perda de relação com o passado, a perda das raízes, que cria um tal ‘mal-estar na civilização’, a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas de idade de ouro, do que no presente. [...] Quanto menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmos.

Carl G. Jung, em Memórias, Sonhos, Reflexões

Jung era tão fascinado pela atmosfera da Idade Média que construiu uma torre de pedra para si, como assinala Guerra. A torre estava ligada aos mortos, como afirmou o próprio Jung – sua mãe, sua esposa e também mortos desconhecidos, cuja presença sua filha mais velha intuíra. Quando ela soube que o pai faria uma casa em Bollingen, em 1923, deu a entender que não deveria, em razão da presença de cadáveres lá. Quatro anos depois, ele encontrou um esqueleto enterrado na propriedade. Tratava-se dos restos de um soldado francês que se afogara em 1799 no Rio Linth. Jung deu a ele um enterro e chegou à conclusão de que a filha havia tido um pressentimento, tal como costumava ter a avó materna dele.

Mesmo sem saber sobre o soldado, para que os mortos se sentissem à vontade na propriedade, Jung não instalou lá nem luz elétrica, nem telefone ou qualquer estrutura de conforto de sua época. E os mortos vieram, ao menos em sonhos.

Em “Memórias, Sonhos, Reflexões”, ele conta que, dormindo na primavera de 1924, ouviu vozes, risos, música. Parecia algo muito real e, por isso, levantou-se e foi olhar através da janela, mas ninguém estava lá e reinava o silêncio. Voltou a dormir e o sonho também retornou, e ele pôde ver centenas de jovens camponeses vestindo roupas escuras passando em festa pelos dois lados da torre.

De tão real que o sonho parecia, Jung se ocupou dele por muito tempo e acabou deparando com um relato do século XVII, no qual uma legião de almas, guiadas pelo fantasma Wotan, passava em cantoria pelos dois lados de uma cabana. Esse achado contribuiu para que o estudioso levasse em conta a realidade do que ocorrera, em vez de considerá-lo, por exemplo, alucinação. Também cogitou a possibilidade de ser um caso de sincronicidade, isto é, de ter captado a imagem real ocorrida na Idade Média, quando havia procissões de jovens mercenários nas primaveras. Festivamente, eles despediam-se da Suíça para lutar pela Itália.


Trabalhando com as mãos e a psique

Na minha torre, em Bollingen, vive-se como há séculos.

Carl G. Jung, em Memórias, Sonhos, Reflexões

Jung cortava lenha, recolhia água de poço, cozinhava no fogão rústico e lia com a ajuda de uma lamparina. Além disso, pintava murais, esculpia pedras e nelas cinzelava inscrições. Segundo ele, os desenhos que fazia nas paredes eram uma maneira de responder às questões que as vidas de seus ancestrais deixaram em suspenso. “É como se uma grande família silenciosa, ao longo dos séculos, povoasse a casa”, explicou.

Ele colocou três lápides na lógia em 1955, após ter escrito nelas o nome de seus antepassados paternos. No teto, pintou brasões: os seus, de sua mulher e de seus genros. É significativo o fato de o brasão da família de Jung, modificado em uma reação de seu avô ao pai dele, conter elementos que remetem à união dos opostos – a cruz e as uvas, o ctônico e o celeste – e à alquimia a que Jung tanto se dedicou.

“Father of the Prophet, beloved Philemon.” Red Book, pag.154

Na parede acima de sua cama, Jung pintou a imagem de Filemon, uma das figuras que emergiram do inconsciente de Jung e contribuíram para sua compreensão da psique. Era um homem com chifre de touro e asas de rei-pescador, a representação da percepção superior do inconsciente.

Marie-Louise Von Franz descreve, em “CG Jung: seu mito em nossa época”, que, na entrada da torre de Bollingen, ela própria um mandala, Jung gravou a frase “Santuário de Filemon – Penitência de Fausto”. O pecado de Fausto era a vontade de poder, o logos masculino que o levou a assassinar Filemon, o velho sábio que honrava deuses numa época sem Deus. Nise da Silveira afirmou, em “Jung: vida e obra”, que Bollingen era o habitat ideal para o Velho Sábio.

Outro arquétipo representado em Bollingen pelas mãos de Jung é o Trickster, ou o trapaceiro, aquele que aponta verdades fazendo piadas ou brincadeiras. Também é bajulador e negociador e promove encontros e acordos improváveis. Jung esculpiu o Trickster em uma das paredes de Bollingen em 1950.


O cubo perfeito

Ao construir um muro para o jardim, nesse mesmo ano, recebeu uma pedra que não correspondia à compra realizada, e não poderia ser usada na obra. Para Jung, aquela era “a pedra que os arquitetos rejeitaram” (Lucas 17, 18), ou a pedra filosofal. Então, ela foi transformada numa espécie de monumento-símbolo da torre, no qual Jung esculpiu inscrições em grego e latim que faziam referência à pedra dos alquimistas, a Telésforo (que guia o caminho para as portas do sol e dos sonhos), à própria pedra-monumento e ao seu 75º aniversário.

Em 1950, em meio a seu trabalho de construir a Torre de Bollingen, Jung esperava receber uma pedra triangular, mas, em vez disso, deparou com um cubo perfeito. Não lamentou o erro do fornecedor: “Esta é a minha pedra”, disse, ainda sem saber o que fazer com ela. Desde criança, ele nutria forte conexão com o elemento pedra.

Ocorreu-lhe escrever, numa das faces, versos do alquimista Arnaldo Villanova, do século XIV. Em latim, falam sobre lapis, a pedra filosofal, símbolo do processo de individuação: “desprezada pelos tolos, mas amada pelos sábios”, segundo o poeta.

Na segunda face do cubo, esculpiu um olho e, dentro dele, como uma pupila, um homúnculo: a imagem de si no olho do outro. Era Telésforo de Asclépio, que ilumina caminhos. Também era considerado um deus da cura na Ásia Menor, onde havia um templo a ele dedicado. Um mandala, contendo a quaternidade Saturno, Marte, Júpiter e Vênus, foi ainda esculpido nessa parte da pedra.

Em grego, Jung acrescentou ao desenho uma inscrição que combina a mitologia mitraica com palavras de Heráclito e Homero: O tempo é uma criança – brinca como criança – num jogo de tabuleiro, o reino da criança. Este é Telésforo, que erra sobre regiões sombrias do cosmos e brilha como uma estrela que se eleva das profundezas. Ele indica o caminho à porta do sol e à terra dos sonhos.*


A terceira face do cubo recebeu, como a primeira, inscrições em latim e em referência à alquimia:
Sou um órfão, sozinho; porém, estou em toda parte. Sou um, mas oposto a mim mesmo. Sou jovem e velho em um só e ao mesmo tempo. [...] Estou oculto na alma de cada homem. Sou mortal para todos, mas intocado pelo ciclo dos éons.*

Para finalizar seu trabalho na pedra-órfã, Jung voltou à face onde havia colocado os versos de Villanova e registrou que o cubo era um marco de seu 75o aniversário e uma oferta de gratidão.

Elaborando o significado da pedra, que permanece à beira do lago, ele concluiu que ela era uma explicação para a própria Torre de Bollingen e uma manifestação de quem nela habitava, mas que não era compreendida pelas pessoas.

O criador da psicologia analítica ainda revelou que teve o desejo de esculpir Merlin na parte de trás do cubo. O mago, filho do demônio e gerado por uma virgem pura, representa a solução para o problema dos opostos. Para Jung, Merlin, ao desaparecer na floresta, foi para Bollingen.

* tradução nossa para a versão em inglês de “Memórias, Sonhos, Reflexões”.

Em 1960, ano anterior ao de sua morte, Jung sonhou com “outra Bollingen”, em meio a um clarão. No sonho, ele ouvia uma voz que lhe dizia que a casa estava pronta para que ele a habitasse. Embora suas assistentes Barbara Hannah e Marie-Louise Von Franz entendessem que se tratava de um sonho de morte, Jung interpretou que deveria rumar para a Bollingen concreta, o que seu médico considerou boa ideia, pois os ares de lá contribuiriam para sua saúde, que já estava debilitada.

Em 6 de junho de 1961, Jung morre, aos 86 anos, em sua residência urbana, na comuna de Küsnacht, em Zurique, na Suíça. (Conheça a vida de Carl G. Jung aqui).


The Bollingen Foundation

Destinada a divulgar a obra de Carl G. Jung em inglês, a Bollingen Foundation foi criada em 1945 em Nova York e Washington, DC, pelo casal Mary e Paul Mellon, e esteve em atividade até 1968. Os Mellons investiram US$20 milhões na iniciativa. Além de se concentrar nos escritos de Jung, a entidade editava livros, promovia palestras, apoiava pesquisas e premiava escritores. Um poeta era agraciado, por ano, com o Bollingen Prize.

A famosa Bollingen Series, cujos direitos foram transferidos para a Princeton University Press, reuniu mais de 250 volumes de diferentes campos do saber, assinados por autores célebres como Mircea Eliade, Richard Wilhelm, Erich Neumann e o próprio Jung. Joseph Campbell, autor de O Poder do Mito, afirmou: “Não sei se alguém um dia ouviria falar de mim, se não fosse a Bollingen”.


Fontes utilizadas nesta pesquisa:

BRUCKNER, D.J.R. “The Bollingen adventure”. 20 jun. 1982. The New York Times. Disponível online em: http://www.nytimes.com/1982/06/20/books/the-bollingen-adventure.html. Acesso em 12 jun. 2014.

CAMPBELL, Joseph e COUSINEAU, Phill. “A Jornada do Herói: Joseph Campbell – vida e obra”. Tradução de Cecília Prada. São Paulo: Ágora, 2003.

CAVALLI, Thom F. “Psicologia Alquímica : receitas antigas para viver num mundo novo”. Tradução de Carlos A. L. Salum. São Paulo: Cultrix, 2005.

FRANZ, Marie-Louise. “CG Jung: seu mito em nossa época”. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Cultrix, 1997.

GUERRA, Maria H. M. “O Livro Vermelho: o drama de amor de C.G. Jung”. São Paulo: Linear B, 2011.

JUNG, Carl G. “Memórias, Sonhos, Reflexões”. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

MEREDITH, Sabini. “The Earth has a Soul: C.G. Jung on nature, technology & modern life”. Berkley: North Atlantic Books, 2002.

SHALIT, Erel. “An interview from Israel”. In: HILLMAN et. Al. “Spring 60”. London: Continuum, 1996.

SILVEIRA, Nise. “Jung: vida e obra”. 11 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

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